{"id":243,"date":"2026-10-16T12:28:08","date_gmt":"2026-10-16T12:28:08","guid":{"rendered":"https:\/\/marino.blog.br\/?p=243"},"modified":"2026-10-16T12:28:08","modified_gmt":"2026-10-16T12:28:08","slug":"a-esquerda-inventou-a-taxa-a-direita-gostou-da-receita-e-o-pobre-ficou-sem-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marino.blog.br\/?p=243","title":{"rendered":"A ESQUERDA INVENTOU A TAXA. A DIREITA GOSTOU DA RECEITA. E O POBRE FICOU SEM CASA"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Como a pol\u00edtica de encarecer a constru\u00e7\u00e3o, concebida para financiar uma cidade mais justa, pode acabar transformando seus melhores bairros em territ\u00f3rios exclusivos dos mais ricos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma extraordin\u00e1ria capacidade da pol\u00edtica brasileira de transformar boas inten\u00e7\u00f5es em p\u00e9ssimos resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esquerda anuncia que pretende combater a desigualdade. Cria uma cobran\u00e7a. A direita chega ao poder, condena o intervencionismo, mas descobre que a cobran\u00e7a produz uma receita extraordin\u00e1ria. E decide conserv\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No final, esquerda e direita encontram um raro ponto de converg\u00eancia: ambas gostam do dinheiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem paga a conta? Como sempre, o cidad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no caso da pol\u00edtica habitacional, principalmente aquele que ambas juram defender: o mais pobre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A cidade brasileira conseguiu uma fa\u00e7anha: criou instrumentos para financiar a inclus\u00e3o social que podem contribuir para tornar a pr\u00f3pria cidade menos inclusiva.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O estranho caso de quem compra um terreno, mas n\u00e3o pode construir<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em S\u00e3o Paulo, o propriet\u00e1rio de um terreno n\u00e3o possui liberdade para aproveitar integralmente seu potencial construtivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe um coeficiente b\u00e1sico de aproveitamento, dentro do qual a constru\u00e7\u00e3o \u00e9 permitida sem o pagamento da chamada Outorga Onerosa do Direito de Construir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acima desse limite, at\u00e9 determinado coeficiente m\u00e1ximo, \u00e9 necess\u00e1rio pagar ao munic\u00edpio pelo direito de construir mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em determinadas opera\u00e7\u00f5es urbanas, esse direito adicional \u00e9 adquirido mediante certificados conhecidos como CEPACs \u2014 Certificados de Potencial Adicional de Constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Traduzindo do burocrat\u00eas: o cidad\u00e3o compra o terreno, paga os impostos sobre a propriedade, assume os riscos do empreendimento, contrata arquitetos, engenheiros e construtores, mas, para construir al\u00e9m de determinado limite, precisa comprar da Prefeitura um direito adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma esp\u00e9cie de ped\u00e1gio vertical.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto mais se pretende construir, maior pode ser a conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os defensores do mecanismo apresentam um argumento aparentemente irretoc\u00e1vel: parte da valoriza\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria deve retornar \u00e0 sociedade, financiando infraestrutura, mobilidade, habita\u00e7\u00e3o social e melhorias urbanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento merece respeito. Afinal, a infraestrutura p\u00fablica efetivamente contribui para valorizar terrenos privados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe uma pergunta que raramente recebe a mesma aten\u00e7\u00e3o:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E se o instrumento criado para financiar a inclus\u00e3o tamb\u00e9m estiver encarecendo a produ\u00e7\u00e3o das moradias que permitiriam essa inclus\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A matem\u00e1tica n\u00e3o tem ideologia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um empreendimento imobili\u00e1rio possui custos de terreno, constru\u00e7\u00e3o, projetos, financiamento, tributos, licenciamento e comercializa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acrescente-se a essa equa\u00e7\u00e3o o pagamento pelo potencial construtivo adicional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algu\u00e9m ter\u00e1 de absorver esse custo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte poder\u00e1 ser suportada pelo propriet\u00e1rio do terreno, mediante redu\u00e7\u00e3o de seu valor. Parte poder\u00e1 reduzir a margem do incorporador. E parte poder\u00e1 chegar ao comprador ou locat\u00e1rio, dependendo das condi\u00e7\u00f5es do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 correto afirmar que cada real de outorga se transforma automaticamente em um real adicional no pre\u00e7o do apartamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tamb\u00e9m seria ingenuidade imaginar que a cobran\u00e7a n\u00e3o influencia a viabilidade econ\u00f4mica dos empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Principalmente quando combinada com restri\u00e7\u00f5es de altura, densidade, uso do solo e uma burocracia capaz de transformar o calend\u00e1rio de obras em exerc\u00edcio de paci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A consequ\u00eancia potencial \u00e9 particularmente perversa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas regi\u00f5es mais desejadas, onde existe infraestrutura, transporte, empregos, hospitais, escolas e servi\u00e7os, limita-se a oferta de novas unidades ou condiciona-se sua expans\u00e3o a pagamentos adicionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A demanda continua crescendo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A oferta encontra obst\u00e1culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o pre\u00e7o responde.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o capitalista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 economia elementar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Quando se dificulta a produ\u00e7\u00e3o de um bem desejado, n\u00e3o se elimina a demanda. Apenas se seleciona quem poder\u00e1 pag\u00e1-lo.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O rico permanece no bairro nobre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A classe m\u00e9dia se afasta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalhador de menor renda vai morar cada vez mais longe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois, o poder p\u00fablico anuncia investimentos bilion\u00e1rios em transporte para trazer diariamente de volta as pessoas que a pol\u00edtica urbana ajudou a afastar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Primeiro encarece-se a proximidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois subsidia-se a dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil imaginar uma pol\u00edtica p\u00fablica mais circular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>T\u00f3quio: quando construir mais deixou de ser um pecado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a bolha imobili\u00e1ria japonesa dos anos 1980, T\u00f3quio tornou-se s\u00edmbolo internacional dos pre\u00e7os estratosf\u00e9ricos dos im\u00f3veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Jap\u00e3o enfrentou posteriormente uma profunda crise imobili\u00e1ria. Mas h\u00e1 uma caracter\u00edstica de seu modelo urbano que merece especial aten\u00e7\u00e3o: a relativa flexibilidade das regras de uso do solo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sistema japon\u00eas adota categorias nacionais de zoneamento, permitindo uma combina\u00e7\u00e3o mais ampla de usos residenciais, comerciais e de servi\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em muitas \u00e1reas, edif\u00edcios multifamiliares podem conviver com atividades comerciais e diferentes padr\u00f5es de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A densidade continua sujeita a regras. Existem coeficientes m\u00e1ximos, limita\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e exig\u00eancias urban\u00edsticas. N\u00e3o se trata de construir qualquer coisa, em qualquer lugar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a est\u00e1 na filosofia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em vez de tratar cada novo edif\u00edcio como uma amea\u00e7a \u00e0 cidade, o sistema permite que o estoque imobili\u00e1rio responda mais facilmente \u00e0 demanda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A OCDE reconhece o zoneamento japon\u00eas como exemplo de flexibilidade e associa essa caracter\u00edstica, ao menos parcialmente, \u00e0 elevada capacidade de produ\u00e7\u00e3o habitacional do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00f3quio n\u00e3o \u00e9 um para\u00edso imobili\u00e1rio. Seus bairros centrais e apartamentos de luxo tamb\u00e9m registraram fortes valoriza\u00e7\u00f5es recentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas sua experi\u00eancia demonstra que uma metr\u00f3pole pode acomodar enormes concentra\u00e7\u00f5es populacionais sem transformar toda expans\u00e3o imobili\u00e1ria em uma batalha permanente contra o planejamento urbano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A li\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 abolir o urbanismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 abandonar a ideia de que planejar significa necessariamente restringir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A melhor maneira de impedir que uma cidade se torne exclusiva dos ricos talvez seja permitir que mais pessoas possam morar nela.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Auckland: a experi\u00eancia que transformou a teoria em n\u00fameros<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se T\u00f3quio oferece uma refer\u00eancia hist\u00f3rica, Auckland, na Nova Zel\u00e2ndia, apresenta uma experi\u00eancia recente e mensur\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2016, a cidade flexibilizou o zoneamento de aproximadamente 75% de suas \u00e1reas residenciais, permitindo maior densidade e novas tipologias habitacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado foi expressivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um estudo publicado em 2026 na revista <em>Economic Modelling<\/em> estimou que a reforma aproximadamente dobrou a emiss\u00e3o de licen\u00e7as para novas moradias por habitante em cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro estudo, publicado na <em>Economic Inquiry<\/em>, concluiu que, oito anos depois da mudan\u00e7a, os alugu\u00e9is estavam aproximadamente 23% abaixo do n\u00edvel que teriam alcan\u00e7ado caso as antigas restri\u00e7\u00f5es tivessem permanecido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aten\u00e7\u00e3o: n\u00e3o significa que todos os alugu\u00e9is tenham ca\u00eddo nominalmente 23%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Significa que, segundo o modelo econom\u00e9trico utilizado, ficaram 23% menores do que no cen\u00e1rio estimado sem a reforma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a \u00e9 importante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a conclus\u00e3o continua poderosa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade permitiu construir mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mercado respondeu produzindo mais moradias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a maior oferta contribuiu para aliviar a press\u00e3o sobre os alugu\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma revolu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma f\u00f3rmula m\u00e1gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apenas a aplica\u00e7\u00e3o de um princ\u00edpio econ\u00f4mico que deveria ser familiar a qualquer liberal: a concorr\u00eancia e a amplia\u00e7\u00e3o da oferta ajudam a conter pre\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Minneapolis: a revolu\u00e7\u00e3o silenciosa do zoneamento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos Estados Unidos, Minneapolis tamb\u00e9m decidiu questionar uma tradi\u00e7\u00e3o urban\u00edstica profundamente arraigada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu plano urbano de 2040 eliminou o zoneamento exclusivamente destinado a resid\u00eancias unifamiliares, permitindo novas modalidades de ocupa\u00e7\u00e3o em bairros anteriormente reservados a casas isoladas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m foram eliminadas exig\u00eancias m\u00ednimas de vagas de estacionamento, reduzindo determinadas barreiras \u00e0 constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os resultados ainda s\u00e3o objeto de debate.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pesquisas identificaram crescimento relativamente moderado dos alugu\u00e9is, mas o Federal Reserve de Minneapolis observa que fatores econ\u00f4micos e mudan\u00e7as na demanda tamb\u00e9m influenciaram esse comportamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, a cidade enfrentou desacelera\u00e7\u00e3o recente na aprova\u00e7\u00e3o de novos empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Portanto, Minneapolis n\u00e3o deve ser apresentada como prova definitiva de sucesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas representa uma mudan\u00e7a conceitual importante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O direito de morar em determinado bairro n\u00e3o deveria depender exclusivamente da capacidade de comprar uma casa em um grande terreno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Permitir duplexes, pequenos edif\u00edcios e apartamentos significa abrir espa\u00e7o para diferentes rendas, diferentes fam\u00edlias e diferentes gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma forma de democratiza\u00e7\u00e3o urbana que dispensa discursos grandiosos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A direita brasileira precisa descobrir o liberalismo urbano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe uma contradi\u00e7\u00e3o particularmente curiosa no comportamento de parte da direita brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defende-se a liberdade econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Condena-se o excesso de interven\u00e7\u00e3o estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Critica-se a tributa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Celebra-se o empreendedorismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, quando o assunto \u00e9 o direito de construir, muitos administradores considerados liberais tornam-se surpreendentemente conservadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Prefeitura estabelece quanto se pode construir, onde, em que condi\u00e7\u00f5es e mediante qual pagamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o liberal, subitamente, descobre as virtudes da arrecada\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A justificativa costuma ser conhecida: precisamos dos recursos para financiar obras p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naturalmente, cidades precisam de infraestrutura. E a valoriza\u00e7\u00e3o produzida por investimentos p\u00fablicos pode justificar mecanismos de recupera\u00e7\u00e3o de parte desse benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema come\u00e7a quando a arrecada\u00e7\u00e3o se transforma em objetivo permanente e a escassez de potencial construtivo passa a ser financeiramente conveniente para o pr\u00f3prio governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Surge ent\u00e3o uma pergunta desconfort\u00e1vel:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 fun\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio arrecadar com a escassez de moradias ou criar condi\u00e7\u00f5es para que essa escassez desapare\u00e7a?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A resposta deveria ser evidente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas receitas p\u00fablicas possuem uma extraordin\u00e1ria capacidade de sobreviver \u00e0s convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas dos governantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esquerda cria o instrumento em nome da justi\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A direita o preserva em nome da responsabilidade fiscal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o cidad\u00e3o descobre que, independentemente do resultado eleitoral, continuar\u00e1 pagando para que sua cidade possa crescer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>N\u00e3o se trata de construir sem limites<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defender maior liberdade construtiva n\u00e3o significa ignorar saneamento, mobilidade, drenagem, seguran\u00e7a, patrim\u00f4nio hist\u00f3rico ou meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seria irrespons\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u00e1reas dotadas de infraestrutura e capacidade de expans\u00e3o, por que restringir artificialmente a produ\u00e7\u00e3o de moradias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o ampliar os coeficientes b\u00e1sicos de aproveitamento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o permitir maior adensamento pr\u00f3ximo aos sistemas de transporte coletivo?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o revisar ou reduzir a cobran\u00e7a de outorga onerosa para empreendimentos residenciais que contribuam para aumentar a oferta?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por que n\u00e3o simplificar licenciamentos e eliminar exig\u00eancias urban\u00edsticas cujo custo social supera seus benef\u00edcios?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, principalmente, por que n\u00e3o avaliar cada instrumento pelo resultado efetivo sobre o pre\u00e7o da habita\u00e7\u00e3o, em vez de apenas pelo volume de recursos arrecadados?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A revis\u00e3o da outorga n\u00e3o precisa significar a ren\u00fancia indiscriminada a todas as formas de financiamento urbano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pode significar uma reforma inteligente, capaz de preservar contrapartidas proporcionais aos impactos efetivos dos empreendimentos, sem transformar o direito de produzir novas moradias em fonte de escassez artificial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo n\u00e3o deve ser simplesmente construir mais metros quadrados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deve ser permitir que mais fam\u00edlias tenham acesso \u00e0 cidade existente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O verdadeiro teste social do liberalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil n\u00e3o precisa escolher entre uma cidade regulada at\u00e9 a imobilidade e uma cidade entregue ao crescimento desordenado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Precisa escolher entre um urbanismo que administra a escassez e outro que viabiliza a abund\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00f3quio demonstra o valor da flexibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Auckland oferece evid\u00eancias de que ampliar a capacidade construtiva pode reduzir a press\u00e3o sobre os alugu\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minneapolis mostra que at\u00e9 tradi\u00e7\u00f5es urban\u00edsticas antigas podem ser questionadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o experi\u00eancias diferentes, com resultados e limita\u00e7\u00f5es pr\u00f3prios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas apontam para uma quest\u00e3o comum: a oferta habitacional importa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E importa especialmente para quem tem menos recursos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ricos conseguem pagar pela escassez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pobres n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso, o liberalismo brasileiro precisa incorporar a liberdade de construir \u00e0 sua agenda econ\u00f4mica, com a mesma convic\u00e7\u00e3o com que defende a liberdade de empreender, produzir e comerciar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caso contr\u00e1rio, correr\u00e1 o risco de defender a liberdade dos mercados em discursos e a reserva de mercado imobili\u00e1rio na pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ser\u00e1 cada vez mais dif\u00edcil explicar ao trabalhador por que ele pode escolher livremente onde trabalhar, mas n\u00e3o consegue pagar para morar perto do emprego.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A cidade n\u00e3o ser\u00e1 socialmente justa quando todos tiverem o mesmo direito de disputar um im\u00f3vel caro. Ser\u00e1 mais justa quando houver moradias suficientes para que esse im\u00f3vel deixe de ser t\u00e3o caro.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A esquerda precisa compreender que boas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o garantem bons resultados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A direita precisa compreender que arrecadar mais n\u00e3o significa necessariamente governar melhor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ambas precisam reconhecer que o cidad\u00e3o n\u00e3o mora em um discurso ideol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mora em uma casa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ou, quando a pol\u00edtica urbana n\u00e3o ajuda, cada vez mais longe dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Afinal, de que adianta prometer uma cidade para todos, se a pol\u00edtica p\u00fablica s\u00f3 permite que alguns consigam pagar para viver nela?<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como a pol\u00edtica de encarecer a constru\u00e7\u00e3o, concebida para financiar uma cidade mais justa, pode acabar transformando seus melhores bairros em territ\u00f3rios exclusivos dos mais ricos H\u00e1 uma extraordin\u00e1ria capacidade da pol\u00edtica brasileira de transformar boas inten\u00e7\u00f5es em p\u00e9ssimos resultados. &hellip; <a href=\"https:\/\/marino.blog.br\/?p=243\">Continue lendo <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=243"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":245,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/243\/revisions\/245"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/marino.blog.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}