{"id":246,"date":"2026-10-23T15:02:41","date_gmt":"2026-10-23T15:02:41","guid":{"rendered":"https:\/\/marino.blog.br\/?p=246"},"modified":"2026-10-23T15:02:41","modified_gmt":"2026-10-23T15:02:41","slug":"o-estado-subiu-o-brasileiro-ficou-no-terreo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/marino.blog.br\/?p=246","title":{"rendered":"O Estado subiu. O brasileiro ficou no t\u00e9rreo."},"content":{"rendered":"O Brasil encontrou uma maneira peculiar de combater a desigualdade: aumentou continuamente a conta do governo e deixou para depois a capacidade do cidad\u00e3o de pag\u00e1-la. A promessa era construir uma sociedade de oportunidades. Constru\u00edmos uma estrutura de despesas. A diferen\u00e7a parece cont\u00e1bil, mas \u00e9 biogr\u00e1fica: est\u00e1 na vida de quem trabalha d\u00e9cadas e continua sem conseguir sair do lugar.<br \/>Desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o, consolidamos um entendimento quase suprapartid\u00e1rio: a solu\u00e7\u00e3o de cada problema exigiria mais uma interven\u00e7\u00e3o, mais uma estrutura, mais uma obriga\u00e7\u00e3o. Governos mudaram de discurso, partidos trocaram de posi\u00e7\u00e3o, advers\u00e1rios fizeram alian\u00e7as. A confian\u00e7a na capacidade do Estado de organizar a vida alheia atravessou essas mudan\u00e7as com admir\u00e1vel estabilidade.<br \/>Seria incorreto dizer que o per\u00edodo s\u00f3 produziu fracassos. A estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria, a amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 sa\u00fade e \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e a redu\u00e7\u00e3o da pobreza foram conquistas reais. Reconhec\u00ea-las, entretanto, n\u00e3o obriga ningu\u00e9m a considerar satisfat\u00f3rio o resultado do conjunto. Uma sociedade pode melhorar e, ainda assim, ficar muito aqu\u00e9m de suas possibilidades.<br \/>A Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 incorporou aspira\u00e7\u00f5es leg\u00edtimas de prote\u00e7\u00e3o e cidadania. Nas d\u00e9cadas seguintes, por\u00e9m, fomos muito mais diligentes em estabelecer compromissos de despesa do que em construir condi\u00e7\u00f5es para financi\u00e1-los com prosperidade. Direitos passaram a ser anunciados com solenidade. Sua sustenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica ficou frequentemente a cargo de um personagem menos celebrado: o contribuinte.<br \/>Em 2024, a carga tribut\u00e1ria brasileira alcan\u00e7aria 34,12% do PIB quando inclu\u00eddos FGTS e Sistema S, segundo a Receita Federal. Aproximadamente um ter\u00e7o da riqueza produzida pelo pa\u00eds. Isso mede recolhimentos, n\u00e3o toda a despesa p\u00fablica. Ainda h\u00e1 d\u00e9ficits, endividamento e juros. O carn\u00ea \u00e9 extenso; o servi\u00e7o entregue continua sujeito a disponibilidade.<br \/>O problema tampouco se resolve comparando percentuais isolados. Existem pa\u00edses pr\u00f3speros com tributa\u00e7\u00e3o elevada. Mas eles combinam, em graus diferentes, produtividade, educa\u00e7\u00e3o consistente, institui\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis e servi\u00e7os p\u00fablicos eficazes. O Brasil adotou compromissos de pa\u00eds rico antes de assegurar a capacidade de produzir como um.<br \/>Paul Collier, em O Futuro do Capitalismo, oferece uma reflex\u00e3o \u00fatil sobre o distanciamento entre elites instru\u00eddas e as comunidades cujos destinos pretendem conduzir. Sua cr\u00edtica ao paternalismo ajuda a formular uma pergunta brasileira: quanto da nossa pol\u00edtica p\u00fablica nasce da experi\u00eancia concreta de quem precisa trabalhar e empreender, e quanto nasce da convic\u00e7\u00e3o de que algu\u00e9m, num gabinete, conhece melhor as necessidades dos demais?<br \/>Conhecimento acad\u00eamico e compet\u00eancia t\u00e9cnica s\u00e3o indispens\u00e1veis. O problema come\u00e7a quando o diploma \u00e9 tratado como substituto da experi\u00eancia e a autoridade como dispensa de prestar contas. Uma pol\u00edtica pode ser intelectualmente elegante, administrativamente sofisticada e inteiramente desastrosa para quem precisa cumpri-la.<br \/>Quem contrata conhece o custo de uma vaga. Quem investe conhece o pre\u00e7o de esperar. Quem abre uma empresa descobre que a inseguran\u00e7a jur\u00eddica tamb\u00e9m cobra aluguel, mesmo quando o neg\u00f3cio ainda n\u00e3o faturou.<br \/>Para o formulador, uma exig\u00eancia pode ocupar duas linhas. Para o empreendedor, pode consumir dois anos.<br \/>Esse arranjo ultrapassa a divis\u00e3o entre esquerda e direita. Nossa tradi\u00e7\u00e3o estatizante antecede a redemocratiza\u00e7\u00e3o. A ela se somaram o paternalismo social, o corporativismo e a prote\u00e7\u00e3o de interesses empresariais bem relacionados. H\u00e1 empres\u00e1rios que defendem a concorr\u00eancia com entusiasmo, desde que ela comece no setor vizinho. O subs\u00eddio recebido costuma parecer investimento estrat\u00e9gico; o imposto pago, uma afronta \u00e0 liberdade.<br \/>A social-democracia brasileira acomodou essas contradi\u00e7\u00f5es. Prometeu universalidade, mas preservou diferen\u00e7as profundas entre a prote\u00e7\u00e3o de grupos organizados e a vulnerabilidade de quem est\u00e1 fora deles. O trabalhador informal financia tributos no consumo, enfrenta servi\u00e7os prec\u00e1rios e observa, \u00e0 dist\u00e2ncia, direitos aos quais dificilmente ter\u00e1 acesso nas mesmas condi\u00e7\u00f5es.<br \/>Enquanto discut\u00edamos como repartir o or\u00e7amento, avan\u00e7ava o rel\u00f3gio demogr\u00e1fico.<br \/>Durante d\u00e9cadas, tivemos uma oportunidade extraordin\u00e1ria: uma estrutura populacional mais favor\u00e1vel ao trabalho e \u00e0 produ\u00e7\u00e3o. O b\u00f4nus demogr\u00e1fico, contudo, nunca foi um cheque depositado na conta do pa\u00eds. Exigia educa\u00e7\u00e3o, investimento, infraestrutura e empregos produtivos. Ter mais pessoas em idade de trabalhar ajuda pouco quando se desperdi\u00e7a o potencial de cada uma.<br \/>Agora envelhecemos sem ter alcan\u00e7ado a prosperidade que poderia sustentar esse envelhecimento. O IBGE projeta que a popula\u00e7\u00e3o brasileira deixar\u00e1 de crescer em 2041. Essa data n\u00e3o marca, por si s\u00f3, o encerramento do b\u00f4nus demogr\u00e1fico, mas evidencia a transforma\u00e7\u00e3o em curso. O tempo que parecia abundante come\u00e7a a apresentar a conta.<br \/>A mobilidade social tamb\u00e9m n\u00e3o desapareceu, mas permanece estreita demais para um pa\u00eds que promete igualdade de oportunidades. Em compara\u00e7\u00e3o publicada pela OCDE em 2018, o Brasil ficou na 27\u00aa posi\u00e7\u00e3o entre 30 pa\u00edses analisados. A origem familiar continua pesando excessivamente sobre o destino individual.<br \/>Transfer\u00eancias de renda s\u00e3o necess\u00e1rias para proteger quem enfrenta priva\u00e7\u00e3o. O erro est\u00e1 em trat\u00e1-las como substitutas de uma economia capaz de oferecer ascens\u00e3o. Aliviar a pobreza \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o imediata. Permitir que uma fam\u00edlia deixe de depender desse al\u00edvio deveria ser a ambi\u00e7\u00e3o permanente.<br \/>Precisamos de um Estado que ensine melhor, proteja com precis\u00e3o, invista com crit\u00e9rio e responda pelos resultados. Isso exige avaliar programas, encerrar os ineficazes, enfrentar privil\u00e9gios e permitir que empresas concorram sem precisar cultivar intimidade com o poder.<br \/>Responsabilidade fiscal tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica social. A d\u00edvida de hoje disputa o or\u00e7amento de amanh\u00e3 com a escola, o hospital e a infraestrutura. O futuro n\u00e3o participa da elei\u00e7\u00e3o, mas costuma receber a fatura.<br \/>A promessa social-democrata era fazer o filho do pobre chegar mais longe que o pai. No Brasil, dedicamos energia excessiva a ampliar os meios do Estado e aten\u00e7\u00e3o insuficiente a verificar se esse destino estava sendo alcan\u00e7ado.<br \/>Depois de quatro d\u00e9cadas, precisamos inverter a pergunta. Antes de saber quanto o governo pretende gastar, conv\u00e9m saber quanto pretende entregar.<br \/>Porque o Estado j\u00e1 subiu bastante. Est\u00e1 na hora de o brasileiro sair do t\u00e9rreo.","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil encontrou uma maneira peculiar de combater a desigualdade: aumentou continuamente a conta do governo e deixou para depois a capacidade do cidad\u00e3o de pag\u00e1-la. A promessa era construir uma sociedade de oportunidades. Constru\u00edmos uma estrutura de despesas. 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